Abertura do Semestre Letivo Suplementar

Começar os trabalhos do semestre suplementar, assistindo a  lives como as de  Mateus aleluia e Ailton Krenak falando sobre o Dom da vida, e Tiganá Santana e Cintia Guedes em um papo sobre Travessias, Performatividades e Negritudes, nos tempos que correm, me chegam como um abraço ancestral. Indispensável a sabedoria dos mais velhos para pensar e aprender sobre a transformação das narrativas de sofrimento dessa “classe recuada” que é o povo em narrativas poéticas, e seguir aprendendo com o bonde dos mais novos que pensam e discutem “ um modo de afirmar o mundo, que afirma a vida”.

O Mateus Aleluia nos traz o entendimento de cultura como Culto e o culto como conexão com aquilo que não vemos, mas sabemos que existe. Ou seja, a cultura é esse instante de religare do humano com o divino (ou com o barro debaixo do chão).  O Ailton Krenak aproveita  o assunto e complementa contando sobre o “Taruandé”, costume de determinada tribo,  que compreende a chegada da primavera como o movimento que o céu faz de se aproximar da terra, e de como a tribo entende e cultua esse momento. É a era hora de cantar e dançar para suspender o céu e curar a atmosfera da terra, respirar.

Estamos vivendo mais um momento de queda do céu sobre a terra, e devido a essa grande diversidade cultural que é o Brasil, muitas são as formas de canto para suspender essa sensação de sufocamento. Talvez por isso tantas pessoas, mesmo que inconscientemente, estejam buscando e acessando o seu religare, reaprendendo práticas de comunhão, revolvendo a terra, conhecendo o barro debaixo do chão da memória, compreendendo o tempo de ouvir e de fazer, fincando raízes para uma experiência de bem viver apesar do caos e da eminência de morte que nos persegue com a colonização e suas reverberações. 

Tenho percebido muitos processos criativos, pesquisas e obras que tratam sobre cura e/ou memória. O amadurecimento do meu próprio trabalho têm transitado principalmente por essas experiências. É como se estivesse chegado a hora de emitir e receber frequências de sobrevivência, tecnologias ancestrais que chegam na criação e ali se faz a comunicação, o culto, a egregóra. Sobre isso Tiganá e a Cintia trazem duas falas muito potentes, ele diz que “ a cura se dá quando as forças participes de um acontecimento estão horizontalmente dispostas” e de certa forma, partindo dessa ideia de  cura, religare, força transformadora, Deus /criação e processo criativo, a Cintia complementa dizendo que “ o fazer artístico é o momento que você se embrenha e se transforma e se transmuta”. 

Tudo o que tem me chegado desde que me conectei com o impulso de criar à partir de memórias e vivências sagradas, têm me mostrado caminhos de retorno e resgate – ou os caminhos sempre estiveram, mas os olhos que veem além só se abriram agora na ‘queda do céu’- . Embora muitas vezes me desconecte e me sinta travada pela dinâmica do dia a dia, desde o dia 01 de agosto quando abri os trabalhos do Rituais de Curação com um ritual para  Obaluayê, e meu pai, seu irmão Oxumarê se fez presente em forma de chuva e arco-iris no instante em que criava, alafiando a minha entrega, quase tudo o que me chega é sobre cura. Sigo atenta criando, ouvindo, silenciando, rezando, cultu(r)ando.

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