Rituais de Curação Part 1

Rituais de Curação não é apenas uma série fotográfica ou um filme, é um lugar de oração. Já faz alguns anos que venho observando, um pouco mais atenta, a fonte criadora da minha inspiração, do meu fazer artístico, da minha existência. Hoje, tenho o entendimento que sendo eu uma mulher negra, artista e candomblecista, a minha arte é o que eu sou e o que eu vibro, é a busca e reflexo da minha ancestralidade, não o que esperam ou o que é mais rentável. 2020 veio com a afirmação da importância desse processo de compreensão, nos apresentou caminhos árduos com uma pandemia mundial. Um ano nulo para muitos, e de aprendizados para os que estão atentos.

A primeira curação aconteceu em 01 de agosto de 2020, um desejo profundo de saudar e criar para Obaluaê, me fez mobilizar minha família para o ato, desde a companhia de minha mãe na buscar da terra vermelha, até o meu irmão mais novo filmando o ritual. Para mim a cura começou aí, por que de certa forma todos participaram mas eu fui o instrumento.

Me preparei para saudar o Senhor da cura e da doença, vesti roupa branca, fiz pipoca, espalhei terra vermelha no tecido branco, sentei no chão e rezei. Ele não demorou a responder, através do seu irmão Oxumaré, que é meu pai, dono da minha cabeça. O dia estava lindo, o céu azul, mas quando começamos a filmar, chuviscou e um rápido arco-íris se apresentou. Eu senti todo o meu corpo vibrar com aquela presença, arrepio dos pés à cabeça. Foi apenas o tempo de entender a resposta, chorar e agradecer, para que o céu voltasse ao normal.

A cura estava ali.